sábado, 18 de março de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Antônio Sérgio Bueno comenta o livro 'Sobre voo', de Léo Kildare Louback

Fred Maia e Léo Kildare Louback - foto de Mércia Costa
 
Análise: ensaísta e professor Antônio Sérgio Bueno comenta o livro 'Sobre voo'
O ator e dramaturgo Léo Kildare Louback lança 26 narrativas curtas que evidenciam cuidadoso trabalho de linguagem

Por Antônio Sérgio Bueno



Quando comecei a ler Sobre voo ou a literatura nasce com a morte de um pássaro, narrativas de espécie indefinida entre o conto e a crônica, não tinha nenhuma expectativa de encontrar textos que provocassem em mim qualquer adesão emocional. Por isso compartilho com meus eventuais leitores minha satisfação em experimentar um gostoso susto diante destas narrativas nada convencionais. Talvez porque esta escrita nasça de uma personalidade multifacetada do autor que é também ator, dramaturgo, tradutor e professor de alemão, entre outras atividades. Estes textos encenam, através de uma luta dramática com a palavra, um jeito muito pessoal de estar no mundo e que me atrevo a resumir numa palavra: intensidade. Quanto à aventura verbal desta coletânea, preciso de duas palavras para tentar caracterizá-la: necessidade e experimentação.


Procuro agora, sem pretensões de aprofundamento, dar uma notícia metonímica dessa obra, ou seja, curtos comentários sobre cinco narrativas, selecionadas por meu gosto pessoal, para, em seguida, tentar alguma síntese, à guisa de conclusão.

SOBRE ELA () O título deste primeiro conto intriga por causa dos parênteses tão próximos um do outro, que podem figurar um vazio, uma fenda e até uma genitália feminina (o texto autoriza esta interpretação). A voz do narrador não é unívoca: apresenta-se como feminina e na primeira pessoa: “Quando eu estiver velha...”, mas na página seguinte esta feminilidade é posta em questão: “Já me fantasiei de mulher...”. As frases são, quase todas, curtas ou curtíssimas.. Mas, às vezes, as vírgulas desaparecem e tudo se atropela numa longa sequência simultaneísta. Palavras como cena, gravando, filmar e plano apontam para o cinema como arte de referência.

SODA CÁUSTICA O narrador delimita um tempo – final de semana –, propício ao exercício da solidão: “Estou só.” Uma câmera outra vez parece passear pelo ambiente (uma cozinha). Algumas palavras de sentido escatológico, como cagar e bosta reverberam na frase “o papel higiênico foi inventado em Chicago” e na expressão “Grande Boston!”. Note-se ainda a ambiguidade em palito (ó), em que se pode ler palito e paletó, a bela sinestesia em “Pit Bull ...fica me olhando com esse tom de voz” e a assonância da vogal aberta “ó” na sequência “E gosto. E gozo”. E esta narrativa termina com uma forma verbal transitiva usada intransitivamente, tão solitária quanto o próprio narrador e que traduz seu sentimento de desforra: “Esmaguei”.

MARIA, O BOLO E EU Representação de um desejo espelhado, o desejo de um desejo do outro. O narrador deseja o desejo de Maria pelo bolo, como se vê nesta frase ambígua: “Passei a desejar o bolo muito mais que a própria Maria”. Ambiguidade que, para meu pesar, o narrador se apressa em desfazer: “Não que eu desejasse Maria”. Estamos diante de uma alegoria da paixão amorosa: “Minha paixão pelo bolo...”, “... quase um tremor de terra". Há uma reflexão metalinguística sobre as vozes ativa e passiva dos verbos: a frase de abertura do texto é “Maria comeu o bolo”, que evoca antigas cartilhas de alfabetização, com frases como “vovô viu a uva”. A frase “o bolo foi comido por Maria” aparece em destaque na página e, segundo o próprio narrador, essa passividade desperta suas fantasias (necessário dizer "sexuais"?). O bolo parece-me óbvia metáfora de um objeto de desejo. Daí o brilhante achado da ambígua frase final: “E como ele...”.

SOBRE VOO Conto que dá título à coletânea. Referindo-se a um pássaro morto, ficou ótima a ambiguidade da frase “tanta pena”. Bom também o neologismo “ofeguei-me” para traduzir o cansaço da narradora. O final é de notável delicadeza lírica: “...repousar, um dia sequer (devia ser 'pelo menos') naquela nuvem com formato de urso de pelúcia que ganhei da minha avó”. Por isso, acho que se aplica à narradora esta frase (creio que de Rimbaud), que cito de memória: “Par délicatesse, j'ai perdu ma vie”.

SOBRADINHO Apresenta pequenas e intensas experiências humanas (não importa se reais ou imaginárias) vividas pelo narrador, compondo a tragédia demasiadamente humana da cidade (que dá título a esta narrativa) no sertão da Bahia. Impõem-se algumas observações de ordem técnica: o belo ritmo desta frase, na qual reponta um pertinente neologismo: “Galhos e mais galhos nordestinam minha paisagem curiosa de turista desinformado”; como em outras narrativas, aqui também aparecem algumas indagações essenciais: “Onde fica minha casa? Aqui? No Peru? Em Düsseldorf? Ou em mim?”.
“Preciso escrever.” Essa frase que abre o conto Capítulo um é a grande chave de leitura deste livro. É como se dissesse: “Se você puder não escrever, então não escreva!”. A página branca tanto pode gritar pela palavra, quando ser sedução do silêncio. Outra frase que traz água para o mesmo moinho: “Precisava falar”. Léo Kildare Louback tem uma relação visceral com a palavra.
Eis algumas linhas de força na escrita deste autor:
- sintaxe inusitada: “matar aquela que me à vida trouxe”, “dez infinitos talvez mais minutos depois...”, “nada haver sozinho”. O que está sendo dito é contorcido também por esta sintaxe;
- exercício de outrar-se: basta lembrar a constante variação interna do narrador, uma desidentificação permanente, ou, para falar como Raul Seixas, uma metamorfose ambulante. Num mesmo parágrafo, um narrador em terceira pessoa convive com um narrador em primeira pessoa: "Ele foi para o quarto e se despiu (...) Pensando bem, eu tenho muito mais pelos...” O narrador pode ser até um animal: “Mas ele, de muito tentar e pouco entender, conseguiu cortar meu rabo...” Dessa tendência a nublar a identidade faz parte a mistura do discurso indireto livre no discurso direto: “Ela continuava com movimentos constantes das antenas o que sentem?” ou “ele se assustou e perguntou se eu está bem meu filho?” Essa paixão de ser o outro se mostra ainda na mistura de idiomas presente em várias narrativas: Em Jota Jota, os nomes dos pais do protagonista Ed são World e Welta (Mundo e Munda, já que Welt é “mundo”, em alemão);
- os paradoxos: o paradoxo é uma figura de pensamento acessada para traduzir o intraduzível, expressar o inexprimível: "Muito barulho ecoando nos corpos mudos e atônitos”, “tão pouco me conhece tanto”, ou “palpável ao extremo para inexistir”;
- alteração na grafia das palavras para sugerir sensações: “...sentir os espasmos da irmã quannnnndo ela os tinha”, as palavras oco e pedaço aparecem esgarçadas e as letras da frase “minha ilusão arco-íris” espalham-se por toda a página;
- neologismos funcionais: "Adeuse-se de mim para sempre”, “ele deve amargar o peso de deixar as coisas tomarem o desrumo que tomaram e “fazer essas pessoas falarem de si através dos próprios corpos...”;
- frases elípticas como signo de falta: “Ed adoraria a surpresa, pensou o zeloso”, no caso, o zeloso pai; “a gente morre por querer demais o que.”, ou “mas.”;
- linguagem poética: tal linguagem é, ao mesmo tempo, o único caminho e um obstáculo para revelar a substância do que urge ser dito: “...a vida não brisa”, “...aquele branco banco daquela praça”; ou “um amor recente e não obstante crescente. só quis mesmo tomar chuva.”.
O texto que encerra este livro enseja também o final destes comentários. O título é , Frustrante. (iniciado mesmo por uma vírgula e com ponto final) e dá conta da insatisfação do narrador por não ter conseguido contar “o que ainda não foi contado”. A meu ver, tal frustração não se justifica porque, do jeito que a vida foi contada aqui, ninguém jamais a contou. O conto e o livro se encerram com um poema concreto de um único verso abissalmente vertical, composto por estas palavras: “Estamos todos à beira da morte”. Esta verticalidade vertiginosa sintetiza, a meu ver, no espaço branco (quase vazio) de uma página, uma figuração da existência humana nestes tempos travestidos e performáticos que estamos vivendo.



    Antônio Sérgio Bueno foi professor de literatura brasileira na UFMG por 30 anos. É mestre em literatura brasileira pela UFMG, doutor em literatura comparada pela UFMG e autor dos livros 'O modernismo em Belo Horizonte' (1982), 'Affonso Ávila' (1993) e 'Vísceras da memória: uma leitura da obra de Pedro Nava' (1997), todos pela Editora UFMG.


SOBRE VOO OU A LITERATURA NASCE COM A MORTE DE UM PÁSSARO
De Léo Kildare Louback
Scriptum
96 páginas
R$ 40


fonte: http://www.uai.com.br/app/noticia/artes-e-livros/2017/02/10/noticias-artes-e-livros,201618/analise-ensaista-antonio-sergio-bueno-comenta-o-livro-sobre-voo.shtml

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Zé Espinguela e o Grupo do Pai Alufá - Arimê








Zé Espinguéla e o Grupo do Pai Alufá: Garuanê - (Zé Espinguéla/Donga). Este é um dos três únicos registros conhecidos da voz de José Gomes da Costa o "Zé Espinguéla", também conhecido por "Pai Alufá". Zé Espinguéla foi um dos fundadores da Mangueira, organizador pioneiro dos concursos de Samba e era sacerdote (Alufá) da nação Mussurumim (influência Islâmica). Esta gravação foi feita a bordo do navio Uruguai em 7 de agosto de 1940 e faz parte do álbum "Native Brazilian Music" (são 8 discos 78 Rpm). No álbum esta corima foi denominada "Macumba de Iansã"". A moça que aparece ao lado de Zé Espinguéla nas fotos é a cantora/atriz e dançarina Anita Othero que era sua filha de santo e foi a rainha do Bloco Sôdade do Cordão.



sábado, 28 de maio de 2016

Fred Maia em Society6

Convido todos a visitarem a minha página no site Society6. Lá você encontra vários produtos que trazem minha arte estampada neles como t-shirts, almofadas, relógios, bolsas e muito mais coisas!


-->


Espero vocês lá!

https://society6.com/fredericomaia

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Fred Maia em VIDA

    Queridos amigos,


     Estou muito feliz de compartilhar com vocês a minha mais recente coleção em colaboração com site VIDA!

     Esta coleção reúne algumas de minhas melhores fotomanipulações e é muito representativa de meu trabalho como artista. Estou muito orgulhoso por compartilhá-la com vocês.

     VIDA é um novo tipo de empresa de moda via comércio eletrônico que conecta artistas de todo o mundo com os produtores para levar nosso trabalho até vocês.

   
     Visite minha coleção em: http://www.shopvida.com/collections/voices/frederico-maia

     Obrigado,
     Fred

 
*  *  *

   Dear friends,

    I'm thrilled to share with you my latest collection on VIDA!

    This collection represents some of my best artwork from over the years and is very authentic to who I am as an artist. I'm really proud today to share this work with you.

    I'm really excited to collaborate with VIDA for this collection. VIDA is a new kind of fashion ecommerce company that connects artists like me all over the world with producers to bring our work to life. For every product sold, VIDA hopes to provide the gift of literacy to the makers they work with.

    Below are some of my favorite items from this collection.
   
VISIT MY COLLECTION AT: http://www.shopvida.com/collections/voices/frederico-maia

    Thank you,
    Fred

terça-feira, 1 de março de 2016

Walter Smetak, o Alquimista dos Sons

No dia 12 de fevereiro comemorou-se 103 anos de nascimento do músico, compositor, escritor, escultor e, sobretudo, inventor de instrumentos musicais, o luthier do novo mundo Anton Walter Smetak, suíço que adotou o Brasil em 1937, fixando-se na Bahia a partir de 1957. Filho de um casal tcheco que habitava a cidade de Zurique.

Smetak desde cedo teve contato com a música. Em 1929, ingressou no Conservatório de Zurique. Continuou seus estudos no Mozarteum de Salzburg e diplomou-se como concertista de violoncelo em Viena.

Em 1937 mudou-se para o Brasil, contratado por uma Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Descobriu apenas após sua chegada que a orquestra já não existia mais. Passa a viver em São Paulo e Rio de Janeiro, tocando em festas, cassinos, orquestras de rádio.

Trabalhou durante alguns anos como músico contratado na Orquestra Sinfônica Brasileira, atuando também na Rádio Nacional, Rádio Tupi, Rádio Guanabara e no Teatro Municipal. Em São Paulo, trabalhou em 1952 no Teatro Municipal e, mais tarde, nas rádios Record e Bandeirantes. Acompanha cantores em gravações e chega a tocar com Carmem Miranda.

Em 1957 muda-se para Salvador, na Bahia, chamado por Hans Joachim Koellreuter, onde passa a ser pesquisador e professor na Universidade Federal da Bahia. Lá conhece a teosofia e passa a realizar pesquisas sonoras. Constrói uma oficina onde cria instrumentos musicais com tubos de PVC, cabaças, isopor e outros materiais pouco usuais. Alguns dos instrumentos não têm utilidade puramente musical. São esculturas influenciadas por sua forma mística de encarar a música e as formas.

Ao longo de sua permanência na UFBa, o músico construiu cerca de 150 destes instrumentos, os quais chamou de "plásticas sonoras". Além disso atuou como violoncelista na Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia e lecionava som e acústica. A partir de 1969, sua oficina passou a ser frequentada por Gilberto Gil, Aderbal Duarte e Tuzé de Abreu. Além deles, também foram seus alunos Tom Zé, Gereba, Djalma Correia, Bira Reis e Marco Antônio Guimarães, fundador do grupo mineiro Uakti, entre tantos outros.

Para executar seus instrumentos, criou, com os alunos da Universidade o "Grupo de Mendigos" que realizou apresentações na Bahia e em São Paulo.

Em 1972, Caetano Veloso citou Smetak na canção "Épico": "Smetak, Smetak & Musak & Smetak & Musak & Razão". Walter Smetak foi um artista profundamente inquieto tendo influenciando toda uma geração de músicos.

Sua obra abordou diretamente as questões mais relevantes para o criador musical no século XX. Ele faleceu em Salvador no dia 30 de maio de 1984, aos 71 anos.



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Lançamento da biografia de José Henriques Maia

Livro escrito por Maria Clara Arreguy Maia, a ser lançado pela Outubro Edições. O lançamento acontecerá em Belo Horizonte, dia 31 de outubro de 2015 e comemorará os 100 anos de nascimento do poeta mineiro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Templo Cultural Delfos: Milton Santos - território e sociedade

Templo Cultural Delfos: Milton Santos - território e sociedade: Milton Santos

Citações:

“O modelo cívico brasileiro é herdado da escravidão, tanto o modelo cívico cultural como o modelo cívico político. A escravidão marcou o território, marcou os espíritos e marca ainda hoje as relações sociais deste país. Mas é também um modelo cívico subordinado à economia, uma das desgraças deste país”
- Milton Santos, em "As cidadanias mutiladas". In______. O preconceito (vários autores). São Paulo. IMESP, 1996-1997, p. 135.


"A educação corrente e formal, simplificadora das realidades do mundo, subordinada à lógica dos negócios, subserviente às noções de sucesso, ensina um humanismo sem coragem, mais destinado a ser um corpo de doutrina independente do mundo real que nos cerca, condenado a ser um humanismo silente, ultrapassado, incapaz de atingir uma visão sintética das coisas que existem, quando o humanismo verdadeiro tem de ser constantemente renovado, para não ser conformista e poder dar resposta às aspirações efetivas da sociedade, necessárias ao trabalho permanente de recomposição do homem livre, para que ele se ponha à altura do seu tempo histórico."
- Milton Santos, em "Do cidadão imperfeito ao consumidor mais que perfeito". do livro "O espaço do cidadão". (coleção Milton Santo, 8). São Paulo, Edusp, 2007, p. 57.


Milton Santos, Brotas de Macaúbas, Chapada Diamantina, 3 de maio de 1926, nasce Milton Santos, filho de Adalgisa Umbelina de Almeida Santos e Francisco Irineu dos Santos, ambos professores primários formados pelo ICEIA. No ano de seu nascimento, o Brasil passa por uma grande agitação política e social, com a impopularidade do então Presidente da República Artur Bernardes e a eleição de Washington Luís. É a época da Coluna Prestes.
A família de sua mãe, cujos pais eram também professores primários, gozava de prestígio por onde passava. Já a família paterna era mais humilde e descendia de escravos. Os pais de Milton sabiam que o caminho para a liberdade era a educação. Conheceram-se em 1921, a poucos dias da festa de formatura do Sr. Francisco, na escola Normal de Salvador. D. Adalgisa ingressaria na mesma escola em 1924, casando-se nesse mesmo ano.
Partiram, então, para Brotas de Macaúbas, onde morava um irmão mais velho de D. Adalgisa, Dr. Agenor, advogado brilhante na região, conhecedor do latim e do grego. Sua clientela era importante, e seu projeto de vida deu certo, a ponto de ser proprietário de um Ford Bigode, que às vezes desaparecia de circulação, já que a gasolina vinha de Salvador e nem sempre chegava regularmente.
O curso primário, Milton o fez em Alcobaça, com os pais, que lhe ensinaram o francês, entre os oito e dez anos. Ali nasceram Nailton e Yeda, seus irmãos. Aos 10 anos, prestou exame de admissão no Instituto Baiano de Ensino, tradicional colégio de Salvador, dirigido pelo Professor Hugo Balthazar da Silveira. Passou em primeiro lugar e foi aceito como aluno interno. Pela primeira vez longe da família, conhece o significado da palavra saudade. Foi colega e amigo de Dr. Geraldo Milton da Silveira, Dezildo Menezes Pereira, Methódio Coelho, Bernardo Leone, entre outros. Criou e dirigiu o jornal “O Farol”, que promovia debates literários e difundia conceitos filosóficos. Mais tarde fundou “O Luzeiro”, para o qual “redigia textos, incentivava os colegas a fazê-los, revisava-os, fazia a paginação e distribuía o jornal”, segundo Geraldo Milton, que acrescenta: “Nele eram publicadas obras de romancistas, contistas, poetas pobres e iniciantes e literatura de cordel.”
Na minha geração, ser cultivado fazia parte da vida. Havia o culto a escritores e intelectuais, como Castro Alves, Rui Barbosa, Gilberto Freyre, Machado de Assis, Eça de Queiroz, cujas obras eram lidas e comentadas. Milton Santos sempre se distinguiu em Matemática e Filosofia. Na Geografia, era admirador de Josué de Castro, que descobriu através de seu professor do Curso secundário, Oswaldo Imbassay. Bem mais tarde, os dois, Milton e Josué, exilados na França, reencontraram-se, infelizmente pouco tempo, pois Josué veio a falecer, sem receber as homenagens que o Brasil lhe devia. Nessa época, como Milton costumava dizer, a Bahia era uma “ilha”, uma cultura não industrializada.
Terminado o curso no Baiano de Ensino, Milton se preparava, no Colégio da Bahia, para entrar na Faculdade. A influência do tio Agenor foi fundamental na escolha da carreira. Milton fez a Faculdade de Direito. O Brasil declarava guerra aos países do eixo, Alemanha, Itália e Japão. Nessa época, criou o PEP – Partido Estudantil Popular e a ABES (Associação Brasileira de Estudantes Secundaristas, uma alternativa da UNE). Chegou a ser candidato à presidência da UNE, mas foi aconselhado a trocar sua candidatura para vice, deixando a presidência para um amigo comunista, Mário Alves, com o argumento de que um negro teria dificuldades em interagir com as autoridades. A chapa foi eleita, Milton aceitou o cargo de vice, mas nunca esqueceu esse fato. Participa também da embaixada pró-construção do mausoléu de Castro Alves, e sai com caravana de estudantes pelo interior do Estado, para arrecadar fundos. Foi seu companheiro, entre outros, Geraldo Milton. Nessa ocasião, ministrava aulas de Geografia Humana, explicando aos alunos “os novos rumos das relações políticas que a guerra vinha determinando no planeta.”
Já na Faculdade de Direito, Milton empolgava seus colegas com discursos pela democracia. De seu grupo de intelectuais faziam parte Fernando Santana, João Falcão, Jacó Gorender, entre outros. O término do curso de Direito coincide com a morte do seu Tio Agenor, numa travessia do Rio São Francisco, quando voltava de Salvador, onde fora articular sua campanha para deputado estadual. Um episódio entre dois grupos pela disputa do grêmio estudantil fez com que Simões Filho, ex-ministro da educação e dono do poderoso jornal A TARDE, conhecesse Milton e o convidasse para trabalhar na redação do jornal quando terminasse a Faculdade. Esse foi o início de uma amizade profunda e duradoura entre os dois. Era uma época movimentada, com o fim do Estado Novo e da 2ª Guerra Mundial.
Os pais de Milton, após a longa estada no interior, voltaram para Salvador em 1940, estabelecendo-se na casa de D. Maria José, tia de Milton, no Gravatá, localidade no entorno da Baixa dos Sapateiros. Poucos anos depois, com financiamento da Caixa Econômica, compram a casa da Estrada da Rainha, onde fundaram uma escolinha que até hoje funciona sob a direção da Profª. Altair Gabrielli, prima de Milton.
Depois de formado, Milton foi professor de Geografia do ICEIA e do Colégio Central. Submeteu-se a concurso com a tese Povoamento da Bahia, passando, então, a ocupar, como catedrático, a cadeira de Geografia Humana do Ginásio Municipal de Ilhéus, ocasião em que já era correspondente do jornal A TARDE. A maneira como descrevia os fatos e a elegância dos textos fez de Simões Filho um seu admirador. Auta Rosa Calazans Neto, em conversa informal, conta que, ainda menina, no colégio das freiras, ela e suas colegas, em Ilhéus, admiravam aquele professor que dava aulas no Ginásio Estadual, sempre elegantemente vestido, sem dispensar o colete. Uma dessas meninas, Maria da Conceição Malta (morta recentemente), veio a ser, posteriormente, uma das suas colaboradoras no Laboratório que mais tarde seria fundado para os trabalhos de pesquisa em Geografia na UFBA. Incentivada por ele, como o foram muitos outros, seguiu a França, para curso de Pós-Graduação, onde se casa, tornando-se Lecarpentier. Recebeu apoio intelectual e financeiro do Dr.Milton e da “família” do Laboratório para a primeira viagem à França. Durante todo tempo, permaneceram sempre amigos.
Milton Santos - foto: (...)
Ilhéus foi fundamental para Milton. Lá ele escreve artigos de grande importância para o jornal e publica o livro “A Zona do Cacau “, onde já aconselha veementemente as autoridades e os proprietários de terra a abandonarem a monocultura, sob pena de sofrerem um desastre econômico mais tarde. Nessa época, começa a se interessar pela AGB, Associação de Geógrafos Brasileiros, após uma das viagens ao Rio de Janeiro para curso de férias promovido pelo IBGE e onde conhece Aroldo de Azevedo e outros grandes nomes da Geografia da época.
É em Ilhéus também que conhece Jandira Rocha, com quem se casa e tem o primeiro filho, Milton Santos Filho mais tarde, brilhante professor da Faculdade de Economia da UFBA e ex-Secretário de Finanças da gestão Lídice da Mata. Milton Filho, falecido prematuramente em plena fase de produção intelectual, foi casado com a Ana Fernandes, professora doutora, atual diretora da Faculdade de Arquitetura da UFBA, com quem teve dois filhos, Nina e Alei. A morte de seu filho em 96, bem como a de seu irmão Nailton, pouco depois, é um duro golpe para esse homem tão ligado aos dois. Por volta de 1955 ou 56, vem para Salvador já casado, e assiste à formatura de Nailton, seu irmão, também bacharel em Direito. Yeda, sua irmã, então estudante de Medicina, ministrava cursos de inglês, alemão, latim, e espanhol na casa da Estrada da Rainha. Milton aluga um apartamento no Loteamento Lanat, muda-se em seguida para o Tororó, e, finalmente, para o Chame-Chame.
A essa época, ocupava o cargo de editorialista do jornal A TARDE e de professor da Faculdade Católica de Filosofia, cujo diretor, Irmão Gonzaga, dedicava uma grande amizade e admiração ao jovem professor. Do jornal A TARDE tinha como amigos o professor Ari Guimarães e Jorge Calmon, esse último, redator chefe do jornal. Nesse tempo, as amizades tinham um significado maior. Durante o tempo em que permaneceu nesse jornal, escreveu 116 artigos versando sobre a zona do cacau, a cidade do Salvador, Europa e África e outros temas locais e globais. A formação de Milton muito se deve a Simões Filho, cuja admiração era mútua. Uma grande e afetuosa família: esse era o caráter que Simões Filho quis imprimir à redação do seu jornal. Mais tarde, esse exemplo seria seguido por Milton Santos, com sua equipe do Laboratório de Pesquisa em Geografia, fundado em 1959.
Em 1956 por ocasião do Congresso Internacional de Geografia no Rio de Janeiro, Milton encontra-se com os grande geógrafos que já conhecia por suas obras, tais como Orlando Ribeiro, de Portugal, Pierre Monbeig, Pierre Deffontaines, Pierre Birot, André Cailleux e o seu mestre maior Jean Tricart. “ Com ele aprendi o rigor, a vontade de disciplina, a obediência a projetos e o gosto de discutir” dizia Milton. Impressionado com a inteligência e a cultura do jovem professor, Tricart, convida-o para um curso de Doutorado no Instituto de Geografia da Universidade de Strasbourg, um dos mais renomados da Europa. Assim, Milton Santos fez a sua primeira grande travessia do Atlântico, em direção ao que seria, mais tarde, seu segundo país, ao recebê-lo, anos depois, como exilado.
Em Strasbourg, apesar de ser tratado como professor, tinha contatos diretos e agradáveis com os estudantes do mundo inteiro que freqüentavam essa grande Universidade. Sobre ele, escreveu o professor Tricart: “O humor, a alegria, e o sorriso de Milton, classificado como inimitável, conquistaram a simpatia de toda a equipe da Universidade”. Milton Santos costumava dizer que essa primeira longa viagem foi a “grande mudança da sua visão de mundo e na sua concepção política. A partir da Europa, seguiu para o seu primeiro contato com a África, e a compreensão dos dois continentes o inspirou a escrever “Marianne em preto e branco” (Marianne, figura feminina, que simboliza a França), publicado em 1960. Diz Milton, “...a herança francesa é muito forte, embora eu tente me libertar dela até com certa brutalidade. Mas ela é responsável por um estilo independente que aprendi com Sartre, distante de toda forma de militância, exceto a das idéias”.
Volta a Bahia, após defender com brilhantismo sua tese de doutorado “O Centro da Cidade do Salvador”, um clássico da Geografia, tão atual como se fosse hoje escrito. Ainda como professor da Faculdade Católica de Filosofia, trazia professores franceses (Jean Tricart, Pierre George, Jacqueline Beaujeu-Garnier, Etienne Juillard, Michel Rochefort, Pierre Monbeig, Guy Lassèrre, Bernard Kayser, dentre outros) , portugueses (Orlando Ribeiro, Raquel Soeiro de Brito, Fernandes Martins e outros) e brasileiros (Manoel Correia de Andrade, Araújo Filho, Aziz Ab’Saber, Aroldo de Azevedo, Orlando Valverde, Penteado, Luís Rodrigues e Lyzia e Nilo Bernardes, entre outros) para conferências abertas ao público. Entre esses professores encontravam-se também as jovens professoras Teresa Cardoso da Silva, Nilda Guerra de Macedo e Ana Dias da Silva Carvalho, as duas primeiras também recém-doutoras por Strasbourg. Em fins da década de 50, Milton inscreve-se no concurso para livre docência da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia mas, surpreendentemente, o concurso não se realiza, por razões que o professor Délio Pinheiro classifica como vinculadas a uma “oligárquica e segregacionista sociedade baiana de belas gravatas e verdades encobertas.” Milton Santos recorre à justiça, tendo como advogado o então Deputado Federal e futuro Senador Nelson Carneiro, vencendo em todas as instâncias e tendo se submetido com brilhantismo ao concurso em 1960, com a tese “Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia”.
Milton Santos - foto: Luciano da Mata/Ag. a Tarde
Após a chegada à Bahia, em 1958, vindo da França, instala seu escritório no Edifício Antônio Ferreira, na rua Chile. Nessa ocasião, conhece, numa cerimônia, o então reitor da Universidade, Edgard Santos. Como é de costume na França o cumprimento com um aperto de mão, Milton faz esse gesto em direção ao Reitor, tido como aristocrata, que fica impressionado com o gesto, com a simpatia e elegância do jovem professor e, por isso, num encontro dias depois, encarregou-o de organizar um grupo de pesquisa, em cujo nome, entretanto não deveria figurar a palavra Geografia, já que a direção não seria dos professores da Faculdade. Assim, com o apoio do reitor Edgard Santos e do encontro como o professor Tricart, no Hotel da Bahia (único hotel moderno da cidade daquele tempo), representando a Cooperação Técnica Francesa, cria-se o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da Universidade da Bahia em 1º de Janeiro de 1959. A França – com o General De Gaulle na Presidência e o Ministro da Educação, André Malraux – abria-se, sobretudo para a América Latina. A essa altura, com equipe já organizada, formada pelas três jovens professoras acima citadas, por jovens estudantes de Geografia e de História e por recém-formados, inicia-se a fase da pesquisa de Geografia da Bahia, cujo ensino, na Universidade da Bahia, já contava com nomes de peso como o dos professores Dalmo Guimarães Pontual e Waldir Freitas Oliveira. Para sediar os trabalhos do grupo, o professor Hélio Simões cedeu um espaço do seu laboratório de Estudos Portugueses, nos fundos da Faculdade de Filosofia. Nesse mesmo ano, Milton Santos organiza o IV Colóquio Internacional Luso-Brasileiro, com o patrocínio da Universidade da Bahia e da UNESCO. Nessa ocasião, professores vindos de várias partes do mundo trocaram idéias no campo da Geografia e das ciências sociais.
A década de 60 pode ser considerada como a época áurea de Geografia na Bahia, pois o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais representou uma proposta acadêmica renovadora. Nele, a ciência geográfica era tratada não apenas como técnica, mas com reflexão. Além de atrair jovens vindos de todo o Brasil e da França, no Laboratório a motivação era constante: trabalhos de campo, seminários, cursos, apresentações de trabalhos, leituras comentadas, reuniões científicas, enfim, um ambiente de efervescência cultural e científica. Estudos e diagnósticos sobre Salvador e o Estado da Bahia foram realizados pela equipe, a partir de solicitações de organismos administrativos. O ambiente era de troca intelectual sem competições negativas. Dessa forma, Milton Santos promove a Geografia ao status de disciplina nobre, aproximando-a de outras ciências: política, economia, história, sociologia e filosofia.
É desse tempo (entre 1959 e 1964) o trabalho exaustivo denominado Programa de Estudos Geomorfológicos e de Geografia Humana da bacia do Rio Paraguaçu, estudo que teve o objetivo de contribuir para a melhoria das condições de vida das populações locais, realizado por solicitação da Comissão de Planejamento do Estado e com o apoio do Instituto Joaquim Nabuco de Pernambuco. Um outro grande projeto foi o estudo sobre o uso da terra nas zonas cacaueira e ocidental do recôncavo, para o Serviço Social Rural, já com análise aerofotogramétrica. Entre 1958 e 1964 foram publicados mais de 60 títulos, livros e artigos de revistas, de autoria de professores brasileiros e estrangeiros. Os deslocamentos eram feitos em um Citroën deux-chevaux, modelo especial para trabalho de campo, oferecido pela Cooperação Francesa, que também doou equipamento para o LGERUB, e no ônibus da recém fundada Escola de Geologia da Universidade.
Era nessa época que o Dr. Thales de Azevedo, então diretor da Fundação para o Desenvolvimento da Ciência, na Bahia, mantinha um seminário freqüentado por sociólogos, geógrafos, economistas, antropólogos. Nele, distinguiam-se intelectuais como Jorge Calmon, Frederico Edelweiss, Raymond Vander Haegen, cônsul da França e diretor da excelente Casa da França, Clarival do Prado Valadares, Pinto de Aguiar, Luis Navarro de Brito, Valentin Calderon, José Calazans, Luis Henrique Tavares, Edite da Gama e Abreu, Isaias Alves, Lísia e Vital Duarte, Fernando Santana, e os muito jovens Fernando Pedrão, Severo Salles e Remy de Souza, entre outros. Nesse ambiente, cria-se o Boletim Baiano de Geografia, que se manteve até 1969, que publicava artigos de geógrafos do Brasil e da França.
Nessa época, destacam-se, ainda outros centros de ensino e pesquisa, tais como o Instituto de Economia e Finanças, o Gabinete de Estudos Portugueses, o Laboratório de Fonética e o Gabinete de Filologia Românica.
Durante todo esse período, a equipe do laboratório participava ativamente das reuniões anuais da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB) nas quais se estudava, exaustivamente, a cidade sede do encontro e seu entorno. Durante 15 dias a AGB era um espaço intelectual importante na época. Em 63, Milton Santos foi eleito presidente da AGB não sem enfrentar, em Penedo-Alagoas, sede da reunião da AGB em 1962, preconceitos quanto à sua candidatura, sendo veementemente defendido, na ocasião, por Caio Prado Júnior, então editor da Brasiliense. Um ano depois, realizou-se com grande sucesso a AGB em Jequié, sob a presidência de Milton.
Milton Santos - foto: (...)
A brilhante carreira do Professor tomou vários rumos quando Jânio Quadros, eleito Presidente da República, mostrou desejo de levar, na sua viagem a Cuba, um dos redatores do jornal A TARDE, e o Prof. Jorge Calmon, redator-chefe do jornal, indicou Milton Santos. Essa viagem aproximou os dois, Jânio e Milton, e, logo após ser empossado, Jânio o convidou para ser subchefe da casa civil na Bahia, cargo que exerceu durante o curto mandato do presidente. Nessa ocasião, propôs a Jânio medidas como punições a bancos e exportadores e imposto sobre as grandes fortunas, o que foi acatado pelo presidente.
Logo depois, o governador Lomanto Júnior o nomeou presidente da Comissão de Planejamento Econômico (CPE), cargo que ele deixou em 1964. Durante o exercício desse cargo, entre 1963 e 1964, Milton Santos tratou de temas de política econômica e planejamento regional, a partir de uma perspectiva científica, utilizando-se da linguagem acadêmica. Apesar de exercer cargos tão importantes, nunca negligenciou seu trabalho no Laboratório. Aquela casa de pesquisa e de trabalho funcionava como uma grande família, onde a confiança, a solidariedade e o companheirismo eram a tônica. Todos que desejaram tiveram a oportunidade de realizar cursos de pós-graduação na França ou na África, desenvolvendo suas aptidões, sempre estimulados pelo prof. Milton Santos, que transmitia, além de ensinamentos, motivações e autoconfiança, através do pensamento autônomo, crítico e criativo. Com sua capacidade inconteste de gestor, compreendia diferenças e incentivava a produção.
A implantação de uma nova filosofia de trabalho em Geografia, até então inexistente no Brasil, abre espaços para a geração de pesquisas, capazes de movimentar outras mentes e acionar novas idéias.
Em meio a esse clima, é colhido pela longa noite iniciada em 1964. Avisado de que corria perigo, é convidado pelo prof. Van der Haegen, cônsul honorário da França, para abrigar-se em sua casa, ao tempo em que Nailton, seu irmão, é acolhido na casa de Celso Furtado. De nada adiantou para Milton: enquanto Nailton, ainda em abril, partia para o México de onde, só lá chegando, comunicou-se com a família, Milton era preso e enviado para o 19 BC, no Cabula, um fim de mundo, na época, onde parte de sua equipe do laboratório e seus amigos iam diariamente visitá-lo, sem poder aproximar-se muito. Com ele, na cela,no “espaço doméstico”, ficaram Auto de Castro, professor de Filosofia da Universidade da Bahia, e o engenheiro Ernesto Dremher, superintendente da Refinaria Landulfo Alves, de Mataripe.
Sobre Milton, diz Auto de Castro: “Em 1949, conheci Milton. A Bahia, nessa época, era muito pequena. Havia uma convergência social para a rua Chile; a elite da Bahia se reunia no Café de Bernadete, que era a sede do Partido Socialista. Era uma portinha junto a Livraria Civilização Brasileira, mais tarde sede da VASP. Intelectuais, poetas, gente da Academia de Letras e políticos aí se reuniam, enquanto moças casadouras, senhoras da sociedade e até a burguesia baiana desfilavam entre ás 16 e 18:30 na rua famosa. Naquela época, havia um espirito na cidade: comentários, anedotas e todos os fatos políticos eram imediatamente conhecidos na rua Chile, devidamente desdobrados e criticados. Hoje não existe mais isso – a cidade cresceu muito e perdeu esse espírito.”
Enquanto esteve na prisão, chegavam cartas e convites de várias Universidades francesas. O próprio Van der Haegen serviu de intermediário entre o governo francês e o Coronel Humberto Melo, responsável pelo 19 BC, segundo ainda Auto de Castro. Na véspera de São João, devido a um inicio de derrame, foi levado ao hospital e depois solto. Tentou ainda continuar sua vida de cidadão e de intelectual, mas o Brasil fechou-lhe as fronteiras. Em dezembro, conheceu uma das suas experiências mais dolorosas: deixar o Brasil, seu filho Miltinho – o casamento já tinha terminado –, sua família, seus amigos, suas raízes. Partiu para a Universidade de Toulouse Le Mirail, onde seu “irmão” francês, prof. Bernard Kaiser, o esperava, tentando proporcionar-lhe um ambiente de trabalho favorável e oferecendo-lhe amizade de irmão. Mais tarde, na mesma Universidade, recebeu o título de Dr. Honoris Causa, o primeiro dos 20 que receberia durante toda a sua vida.
Milton Santos - foto: (...)
É preciso dizer que, embora afastado fisicamente, Milton esteve intelectual e emocionalmente ligado á Bahia, e foram muitos os trabalhos que aqui continuaram a se realizar sob sua orientação. As professoras Antônia Dea Erdens e, posteriormente, Tereza Cardoso da Silva, no Laboratório, continuavam o trabalho de Milton, dirigindo a equipe por ele formada.
De Toulouse, onde ficou por três anos, Milton Santos fixa-se em Bordeaux. Lá, entre os seus alunos, havia uma que se distinguia dos demais, Marie Hélène Tiercelin, que mais tarde viria a ser sua mulher, nos últimos quase trinta anos, mãe de seu segundo filho, Rafael. Marie Hélène foi um marco em sua vida pessoal e intelectual. Proporcionou-lhe, no ambiente de trabalho, a paz, a tranqüilidade e o equilíbrio necessários ao seu mister de grande pensador. E, sendo geógrafa, trocava com ele déias de trabalho, além de ter feito as traduções de vários de seus livros. Observa-se que a fase de grande produção intelectual de Milton começou em início de 70, com Marie Hélène.
A partir de 1964, também começa a sua longa trajetória pelo mundo. De Bordeaux, onde fica durante um ano vai para Paris, onde convive com amigos franceses, entre os quais Michel Rochefort, Jacqueline Beaujeu-Garnier, Pierre George, Guy Lassère, George e Niki Coutsinas, Oliver Dolffus, Jacques Levi e brasileiros entre os quais Miota e Luís Navarro de Brito, Miguel Arraes, Celso Furtado, além de alunos brasileiros que se encontravam cursando o doutorado nas diversas universidades francesas. Para a Venezuela, onde foi contratado para estudar Caracas no programa “Venezuela Hoje”, financiado pelo governo da Venezuela e pela ONU, segundo informações da Profª. Drª Antônia Dea Erdens, leva consigo alguns colaboradores: dois brasileiros, a própria Antônia Dea e Licia do Prado Valadares, e duas francesas: profª Hélène Lamicq – hoje reitora da Universidade de Creteil (FR) – e Marie Hélène Tiercelin. Antes de seguir para Toronto, casa-se, no Haiti, em 1972, com Marie Hélène. Viajam, assim, para a Universidade Politécnica de Lima (73), Dar-es-Salaam (74-76), onde se torna amigo do então presidente Nyerere. Daí segue para a Columbia (NY 76-77) e volta à Venezuela (75-76). Foi também professor pesquisador durante dois anos do Massachuselts Institute of Technology, Cambridge (71-72), quando então é convidado para fundar um Laboratório de Geografia na Nigéria, África.
Marie Hélène está grávida de Rafael. Como um presente para Milton, para que seu filho nascesse baiano, Marie Hélène decide vir à Bahia. Era o pretexto que ele precisava para voltar em definitivo ao Brasil, já que as duas vezes que aqui esteve, antes de 1977 – uma das quais para a SBPC e a convite da Profª Maria de Azevedo Brandão – foram passagens rápidas. Durante os treze anos fora do país, estruturou a base do pensamento que analisa o impacto social provocado pelo desenvolvimento urbano político e econômico. Milton volta, conhecido e admirado mundialmente, já com várias obras publicadas. Trazia um novo livro que iria revolucionar a Geografia pelos seus conceitos, Por uma Geografia Nova, dedicado a Lígia Ferraro, sua amiga, morta prematuramente. O lançamento do livro aconteceu na Livraria Civilização Brasileira da Avenida Sete, nas Mercês. No mesmo ano, professor Milton enche um auditório do Instituto de Geociências da UFBA, com cerca de 200 pessoas vindas de todas as partes da Bahia e do Brasil num curso de extensão sobre “A Cidade Mundial de Nossos Dias”. Nasce Rafael, em julho de 1977.
A UFBA, entretanto, não se interessa por reintegrá-lo como professor. Em anos anteriores, vários reitores foram procurados para que trouxessem Milton do seu exílio. Algumas promessas foram feitas, em vão. A UFBA, em 1977, continuou em silêncio, assim como as demais universidades do Brasil, com exceção do Rio Grande do Sul. Milton Santos vai para o sul, trabalha entre São Paulo e Rio de Janeiro como consultor. Em São Paulo, é convidado por sua amiga Maria Adélia Aparecida de Souza, na época coordenadora de Ação Regional do governo Paulo Egydio Martins, como consultor, enquanto não conseguia uma função na Universidade. Em 1979, vai para o Rio de Janeiro onde é contratado como professor assistente. Continuou realizando trabalhos esporádicos. Foram anos difíceis, pelo fato de não saber o que lhe reservava o futuro, para ele e sua pequena família. Finalmente, em 1984, com o apoio de jovens professores, submete-se ao concurso para titular na USP. Foi fundamental, nesse momento, o apoio dos amigos Maria Adélia Souza e Araújo Filho, da mesma forma que a Professora Maria do Carmo tinha sido, na UFRJ. Na USP, manteve um grupo de pesquisadores nos mesmos moldes do antigo Laboratório de Geomorfologia, os quais continuam até hoje. A partir daí, a carreira brilhante de Milton Santos começou a decolar no Brasil, apesar de já ser conhecido no mundo inteiro. Os convites do exterior continuaram.
Milton Santos - foto: (...)
Foi professor visitante da Universidade de Stanford, na Cátedra de Joaquim Nabuco (97-98). Foi Diretor de Estudos em Ciências Sociais, Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris 1998). Consultor das Nações Unidas, OIT, OEA e UNESCO. Consultor junto aos governos da Argélia e Guiné Bissau. Consultor junto ao Senado Federal da Venezuela para questões metropolitanas. Membro do comitê assessor do CNPq e ex-coordenador da Comissão de Coordenação dos Comitês Assessores do CNPq (82-85). Coordenador da área de Arquitetura e Urbanismo da FAPESP (Fundação para o Amparo a Pesquisa no Estado de São Paulo, 91-94). Membro da Comissão de Alto nível do Ministério da Educação, encarregada de estudar a situação de ensino no pais (98-90). Membro da comissão especial da Assembléia Constituinte do estado da Bahia, encarregado de redigir um ante-projeto de Constituição Estadual (89). Presidente da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR 91-93). Presidente da Associação de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE 93-95).
Em 1994, recebeu o Prêmio Internacional Vautrin Lud, correspondente ao Nobel da Geografia, tendo como proponente o professor Jorge Gaspar, da Universidade de Lisboa. Costumava dizer que, a partir desse prêmio, a mídia brasileira lhe abrira as portas. Recebeu-o na pequena cidade de Saint-Dié des Vosges, coincidentemente na região da cidade de Strasbourg onde havia defendido, na década de 50, o seu doutorado. Pela primeira vez na história desse prêmio, ele era outorgado a um geógrafo que não era nem francês nem norte-americano.
Milton Santos recebeu ainda mais de duas dezenas de medalhas, tais como: Medalha de Mérito, Universidad de La Habana, Cuba, 1994; Colar do Centenário (Conjunto de Obra em Geografia) Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1997; Ordem 16 de setembro – Primeira Classe, Estado de Mérida, Venezuela, 1998; 11ª Medalha Chico Mendes de Resistência, Grupo Tortura Nunca Mais, Rio de Janeiro, 1999; Medalha do Mérito, Fundação Joaquim Nabuco, Recife,1999, entre outras. Dentre os prêmios destacam-se: Vozes Expressivas do Final do Milênio, Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 1997; Personalidade do Ano, Instituto de Arquitetos do Brasil, Rio de Janeiro,1997; Homem de Idéias, 1998, Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro,1998; O Brasileiro do Século, Revista Isto É, 1999 (laureado na categoria Educação, Ciência e Tecnologia, entre 20 personalidades ); Prêmio Jabuti (melhor livro de Ciências Humanas) 1997, com A natureza do Espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção, Hucitec, São Paulo, 1996; prêmio UNESCO na categoria Ciência, 2ª edição, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, Brasília, 2000. Seu último prêmio foi o Multicultural Estadão Cultura, em junho de 2000, concorrendo com inúmeras personalidades e sendo votado por milhares de brasileiros. Numa cerimônia carregada de emoção e beleza, disse: “Considero a indicação do prêmio Multicultural Estadão Cultura como um presente expressivo que coroa, de alguma forma, o meu trabalho intelectual [...] Meu desejo secreto, o desejo dos pensadores, e é difícil confessa-lo, é que o seu trabalho possa ter alguma repercussão, sobretudo quando ele ultrapassa os limites da sua própria área e da universidade. O fato de seu o trabalho ter uma visibilidade em camadas mais amplas da sociedade dá ao seu autor, não a certeza que ele tenha o aplauso geral, mas um certo conforto de ver que o seu discurso não é um discurso fechado. Agradeço a todos que votaram em mim, aos meus amigos e ofereço esse prêmio a todos os brasileiros que tanto esperam de seus intelectuais.”
Entre 1980 e 2000, Milton recebeu vinte títulos de Dr. Honoris Causa de Universidades do Brasil, da América Latina e da Europa. Publicou mais de quarenta livros e mais de 300 artigos em revistas cientificas, em português, francês e espanhol e inglês. Seu último livro, publicado em 2001 pela editora Record, foi : O Brasil: Território e Sociedade no Inicio do Século XXI. Organizou diversos livros, números especiais de revistas cientificas em português, francês e inglês. Fez pesquisas e conferências em diversos países, dentre os quais: Japão, México, Colômbia, Costa Rica, Índia, Argentina, Uruguai, Tunísia, Argélia, Costa do Marfim, Benin, Togo, Gana, Panamá, Nicarágua, Espanha, Portugal, República Dominicana, Cuba, Estados Unidos, França, Tanzânia, Venezuela, Peru, Inglaterra, Suíça, Bélgica, Senegal e Itália. Concedeu inúmeras entrevistas à mídia falada e escrita, a entidades diversas, a estudantes etc.
Em 1996, para os seus 70 anos, amigos se reuniram para prestar-lhe uma homenagem, num Seminário Internacional, em São Paulo, denominado O mundo do Cidadão. Um cidadão do mundo. Nessa ocasião, foi lançado um livro com o mesmo nome, com depoimentos de 67 intelectuais e amigos de todas as partes do mundo, acolhidos na ocasião pela USP, entre os quais, Manoel Correia de Andrade, Maurício Abreu, Aurora Garcia Ballesteros, Paul Claval, Leila Dias, Inês Costa Ferreira, Octavio Ianni, Rosa Ester Rossini, Armen Mamigonian, Joaquim Bosque Maurel, Rui Moreira, Aldo Paviani, Richard Peet, Ana Clara Torres Ribeiro, Teresa Barata Salgueiro, David Slater, Neil Smith, Marlene d`Aragão Carneiro, Teresa Cardoso da Silva, José Estebanez Alvarez, Jacques Lévy, Creuza Santos Lage, Neyde Maria Gonçalves, Sílvio Dvorecki, Saskia Sassen, Maria Azevedo Brandão, Délio Ferraz Pinheiro, Carlos Reboratti, Graciela Ortega, Daniel Hiernaux-Nicolas, Jorge Gaspar, Pedro Geiger, Ruy Moreira, Adir Rodrigues, Ana Fani Carlos, Pablo Ciccolella, José Borzacchiello, Ana Clara Ribeiro, José Estabanez Álvarez, Miguel Panadero, Ana Maria Gicoechea, Terence McGee, Germân Wettstein, Maria Auxiliadora da Silva, Remy Knafou, Pedro Vasconcelos e Sílvio Bandeira de Melo entre muitos outros. A Profª. Maria Adélia Aparecida de Souza e o grupo de jovens mestrandos e doutorandos do Profº. Milton Santos na USP, organizaram a cerimônia. O livro foi organizado pela Profª. Maria Adélia de Souza, que contou com a colaboração dos Profs. George Benko, de Paris-Sorbonne; Hélène Lamicq da Universidade de Creteil, Milton Santos Filho da Faculdade de Economia da UFBA; Luiz Cruz Lima da Universidade do Ceará e Maria Auxiliadora da Silva da UFBA. Esta cerimonia marcou o reconhecimento pleno da importância do Milton Santos.
Milton Santos - foto: (...)
Segundo Maria Adélia de Souza, “Milton foi exilado político. Mas, como poucos não tira proveito disso, exerce vivamente a ética na política. Jamais se comportou como vitrine do regime militar [...] Sofreu todas as dificuldades para se estabelecer e sobretudo, reingressar na vida e nas universidades brasileiras. Apesar das vicissitudes, procura exercer o seu labor e construir, aí sim, um profundo pensamento teórico e político que o Brasil e os brasileiros necessariamente, aos poucos estão tendo de conhecer e admirar. Milton se instala, não como herói que volta carregado nos braços do povo mas, difícil, cautelosa e profundamente vai se impondo como um dos principais pensadores e intelectuais brasileiros, com um pensamento e uma posição política profundos e inarredáveis. No exílio, se dedica obstinadamente aos estudos. É aí que fundamenta, sem dúvida nenhuma, sua obra posterior.”
Além das universidades francesas, americanas e latino-americanas, da África e da Ásia, Milton Santos colaborou ainda com a Complutense de Madrid, de Barcelona e de Lisboa.
Na trajetória de Milton Santos é importante relembrar sua disponibilidade para com os amigos, para com os jovens, seu interesse por eles, sua percepção aguçada que fez de cada um que privou de sua amizade, sentir-se o único. Essa afeição também atingiu amigos como Octávio Ianni, Gervásio Neves e Michel Patty, Joaquim Bosque Maurel, Paul Claval, Jacques Hubschman. Estar ao lado do Profº Milton Santos traz a segurança de estar perto da sabedoria. Sua presença é forte e ao mesmo tempo suave e sua energia, vontade e alegria são contagiantes.
Em 24 de junho de 2001 a saudade toma o lugar de sua presença generosa, do seu sorriso aberto, de sua fala firme e suave, ficando a certeza de termos convivido com quem soube, mais do que ninguém, defender a construção de um mundo mais humano.
_______
:: Fonte/por: *SILVA, Maria Auxiliadora da. Biografia do Milton Santos. in: Fundação Perseu Abramo. Disponível no link. (acessado em 29.03.2011). *Maria Auxiliadora da Silva é professora do Departamento e Mestrado de Geografia do IGEO-UFBA


"O homem de fora é portador de uma memória, espécie de consciência congelada, provinda com ele de um outro lugar. O lugar novo o obriga a um novo aprendizado e a uma nova formulação. A memória olha para o passado. A nova consciência olha para o futuro. O espaço é um dado fundamental nessa descoberta. Ele é o teatro dessa novação por ser, ao mesmo tempo concluído e inconcluso, num processo sempre renovado. Quanto mais instável e surpreendedor for o espaço, tanto mais surpreendido será o indivíduo, e tanto mais eficaz a operação da descoberta. A consciência pelo lugar se superpõe à consciência no lugar. A noção de espaço desconhecido perde a conotação negativa e ganha um acento positivo, que vem do seu papel na produção da nova história" 
- Milton Santos, em "A Natureza do Espaço". São Paulo, Editora EDUSP, 2002, p. 330. 
"A história do homem sobre a terra é a história de uma ruptura progressiva entre o homem e o entorno. Esse processo se acelera quando, praticamente ao mesmo tempo, o homem se descobre como indivíduo e inicia a mecanização do Planeta, armando-se de novos instrumentos para poder dominá-lo. A natureza artificializada marca uma grande mudança na história da natureza humana. Hoje, com a tecnociência, alcançamos o estágio supremo dessa evolução.”
- Milton Santos, em "1992: A redescoberta da natureza". São Paulo: FFLCH/USP, p. 4-5.


"O sonho obriga o homem a pensar."
- Milton Santos

Milton Santos - foto: (...)
Foi o único estudioso fora do mundo anglo-saxão a receber o mais alto prêmio internacional em geografia, o Prêmio Vautrin Lud (1994). Considerada equivalente ao Nobel na Geografia, a láurea marcou o reconhecimento de suas idéias no Brasil. Sua produção acadêmica não permite modéstia: são cerca de 40 livros e 300 artigos científicos.

"Outrora, os intelectuais eram homens que, na Universidade ou fora dela, acreditavam nas idéias que formulavam e formulavam idéias como uma resposta às suas convicções. Os intelectuais, dizia Sartre, casam-se com o seu tempo e não devem traí-lo."
- Milton Santos, em "1992: A redescoberta da natureza". São Paulo: FFLCH/USP, p. 11.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Edgar o Mogrou - letra e música de Fred Maia





quando for o tempo de todos pagarem por tudo
pagarão aqueles infames que tomaram a guitarra do menino
que maltrataram o menino
que o jogaram no mundo
e que o prenderam na prisão de médicos maus

ainda assim as marcas vão continuar
na carne daquele cara que fica pelas ruas durante os dias
com sua inseparável viola
e com a livre determinação de viver
de dar valor à amizade, ao amor

segue seu caminho, menino
segue poeta e louco com seu caderninho
cheio de canções que você fez

grande poeta Mogrou
grande Edgar Allan Louco
segue seu caminho de liberdade

Conheci Edgar em Brasília em 1984. Fiz a música em sua homenagem e tive a oportunidade de cantá-la para ele. A imagem do Steppenwolf remete ao amor que ele tinha à banda. Grande Edgar! Saudades de você, amigo!