quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Fred Maia - Conto I



Sabia que na hora que a coisa começasse tudo fluiria na mesma sintonia, então ficava parado horas esperando saber o que tinha pra dizer. E não vinha nada. Mas acabou vindo o que veio. Feito enxurrada que não tem como ser contida. Deu tanto trabalho ficar decidindo as palavras que desisti. Não era por ali. A coisa é outra. Há que ser porque senão não será. E ia continuando no ensaio de soltar o instinto de fazer sem pensar em nada, só fazer. Sentia falta de uma ação mecânica, rabiscar as palavras afetando uma grafia toda especial pra o momento. Saudade de alguma vivência que não vivi. Brincar de ser inventivo, sair catando palavras como quem cata conchinhas no final da praia. Ou, quem sabe, inventá-las mesmo, colando um final diferente numa conhecida aqui, usar uma nova no lugar de outra ali. Assim ficava o produto dessa empreitada maluca: algo cartão vem servido em bandeja de prata enegrecida, quadras retorcidas retinem cansadas ilustres palestras, minimizados os efeitos colaterais. O sol. A fumaça negra marca a tola fatura submissa ao erro, quase a soletrar factóides farmácias em formas de discos semi plúmbeos na chuvosa manhã de novembro. Trazia no embornal a ambição desmedida domada, arrancada a custo, ora orgasmos descoloridos, ora escravo da paixão por pathos. Uma figura real em sua torre de marfim quando tudo é querer... now neva ao longe sobre o curral and as aves resignadas que aqui tomam chuva, crentes na ressurreição do pássaro salvador dali, sabem ser tarde demais: fez-se-lhes a luz!


 foto e colagem de Mércia Costa

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O canto dos escravos



Um dos títulos mais importantes e corajosos da fonografia brasileira acaba de chegar, 21 anos depois do lançamento em elepê, ao formato digital. Trata-se de O Canto dos Escravos (dentro da série Memória Eldorado), coleção de 14 cantos da série recolhida por Aires da Mata Machado Filho no fim dos anos 20 do século passado, em São João da Chapada, município de Diamantina, Minas Gerais. Interpretando os cantos, Tia Doca, pastora da Velha Guarda da Portela, Geraldo Filme, um dos nomes fundamentais do samba paulistano, e Clementina de Jesus, a rainha negra da voz, como a definiram Moacyr Luz e Aldir Blanc.

O projeto do disco e a coordenação artística são de Aluísio Falcão, colaborador do Caderno 2, e a direção musical e produção ficaram a cargo de Marcus Vinicius de Andrade, hoje diretor artístico da gravadora CPC-Umes.

Ambos trabalharam, antes, no selo Marcus Pereira, que, pioneiramente, levou a cabo um levantamento sonoro da música da cultura popular de diversas regiões do Brasil - trabalho, aliás, que ainda não mereceu relançamento em CD à altura de sua importância.

Marcus Pereira era um publicitário amante da música que criou o selo para dar brindes aos seus clientes, nos fins de ano. Aos poucos, abandou a rendosa publicidade, na qual era muito bem-sucedido, e ficou só com a gravadora, que viveu sempre grandes dificuldades financeiras. Problemas de distribuição, comum a todos os selos alternativos, projetos caros, como o citado mapeamento da cultura popular, com deslocamento de equipes e equipamento para praças distantes.

Não tinha preocupação comercial e tinha muita preocupação com a cultura. Os que se juntaram a ele tomaram o exemplo e, posteriormente, em outros selos, deram, de alguma forma, prosseguimento ao seu trabalho, eventualmente, ampliando-lhe o universo. A Eldorado tinha e tem, sim, orientação comercial, mas com extremo cuidado na seleção de seus títulos (Cartola, Nelson Sargento, Geraldo Filme, Adoniran Barbosa fizeram suas estréias em disco por ela), e sua iniciativa mais ousado terá sido esse O Canto dos Escravos, que há muitos anos estava fora de catálogo e era objeto de disputa entre colecionadores, estudiosos e amantes da cultura brasileira.

O filólogo, filósofo, professor de Filologia Românica da Universidade Federal e da Universidade Católica de Minas Gerais, historiador, jornalista, presidente, durante muito tempo, da Comissão Mineira do Folclore, foi um pioneiro em muitas frentes. Escreveu, nos anos 30, já que sofria de deficiência visual, uma Educação de Cegos no Brasil, e publicava, no jornal O Estado de Minas, uma coluna semanal com lições de ortografia e gramática, além de responder às dúvidas dos leitores.

Carlos Drummond de Andrade escreve-lhe uma homenagem em forma de poema, louvando o "mineiro ladino/ Que captou na fala do povo/ No mistério dos ritos/ no arco-íris das serras/ O ar, a alma de Minas".

Em férias, em 1929, o filólogo viajou para São João da Chapada, onde lhe chamaram a atenção "umas cantigas em língua africana ouvidas outrora nos serviços de mineração", conforme descreveu no livro O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, obra publicada em 1943 pela editora José Olympio.

Vissungos - Tais cantos são chamados vissungos, palavra que vem do umbundo ovisungo (cantiga, cântico), conforme ensina Nei Lopes em seu Dicionário Banto do Brasil. Já era plano de Aires da Mata Machado recolher os vissungos e reunir o vocabulário e a gramática da língua dos negros benguelas. Teve pouco êxito na primeira investida; na segunda, ele e seu colaborador Araújo Sobrinho ouviram de um Seu Tameirão 200 palavras e algumas cantigas; adiante, surgiram outros cantadores que sabiam letra, música e tradução.

Mata Machado sustenta a importância dos vissungos, sua influência nos começos daquele arraial e mais "os vestígios da língua das cantigas na linguagem corrente, na onomástica e na toponímia" - os vestígios de um um dialeto banto num tempo em que se pensava que a língua dos negros trazidos como escravos para o Brasil resumia-se ao nagô.

Ele defendia que os estudos da dialetologia brasileira e questões que dissessem respeito à etnografia seriam sempre provisórios se não fosse considerada a importância de Minas Gerais - e o tempo encarregou-se de mostrar seu acerto. O texto de introdução de O Negro e o Garimpo em Minas Gerais vai reproduzido no CD; o autor autorizou essa reprodução e a gravação de 14 dos 65 cantos que recolheu e partiturou. Autorizou, ainda, a reprodução das notas que, no livro, acompanham as letras dos cantos, traduções do dialeto dos benguelas e observações sobre o sentido dos textos.

O dialeto, já modificado, incorporava palavras em português e misturava as duas falas: "São João foi no céu, é dévera/ São João foi no céu, é mentira/ Omenhá, omenhá rossequê", canta a voz ancestral de Clementina de Jesus, nascida em Valença, no Estado do Rio, mas de família que migrou de Minas, no Canto XII. Os cantos não têm títulos, são numerados.

O disco, de uma beleza crua, não tem instrumentos harmônicos. Acompanham os três cantores a percussão de troncos, xequerês, enxadas, cabaças, atabaques, agogôs, ganzás, caxixis e afoxés tocados por Djalma Corrêa, Papete e Don Bira.

Os intérpretes são figuras de sabida importância na divulgação e sustentação da cultura brasileira de origem africana. Geraldo Filme, grande compositor, cantor de vozeirão profundo, foi, na definição de Osvaldinho da Cuíca, o grande articulador, a "cabeça pensante" do samba paulistano. Tia Doca, nascida Jilçaria Cruz Costa, manteve por décadas um pagode dominical que ajudou a manter vivo o samba de raiz carioca; sua participação no disco foi sugerida por Clementina de Jesus, que foi revelada ao mundo aos 64 anos, depois de ouvida, num botequim da Lapa, centro do Rio, por Hermínio Bello de Carvalho.

Paulo Eduardo Neves
Agenda do Samba & Choro, o boteco virtual do samba e choro
http://www.samba-choro.com.br 


domingo, 29 de dezembro de 2013

Renato Andrade - Siriema no Campo


Renato Andrade (Abaeté, 28/8/1932 — 30/12/2005) foi um músico compositor e instrumentista brasileiro. É considerado um dos maiores mestres da viola caipira instrumental.

Por influência familiar, Renato foi ainda jovem para Belo Horizonte estudar violino. Mais tarde, de volta à sua terra natal, apaixonou-se pelo som da viola caipira e dedicou-se completamente ao instrumento. Tornou-se um virtuoso que mesclava o erudito ao popular e introduziu a viola caipira nas salas de concerto. O primeiro trabalho solo, "A Fantástica Viola de Renato Andrade", foi lançado em 1977. Aparece ao lado de músicos como Almir Sater, Chico Lobo, Ivan Vilela e Pereira da Viola. Em 1972, teve participação importante no disco "Piano e Viola", de Taiguara.

Costumava brincar, dizendo:

“Viola é como mortadela. Todo mundo gosta, mas tem vergonha de comer na frente dos outros.”

domingo, 8 de dezembro de 2013

Nelson Mandela


Nelson Rolihlahla Mandela (Mvezo, 18-7-1918  — Joanesburgo, 5-12-2013) foi um advogado, líder rebelde e presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Negra, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1993, e Pai da Pátria da moderna nação sul-africana.

Até 2009 havia dedicado 67 anos de sua vida à causa que defendeu como advogado dos direitos humanos e pela qual se tornou prisioneiro de um regime de segregação racial, até ser eleito o primeiro presidente da África do Sul livre, razão pela qual em sua homenagem, a Organização das Nações Unidas instituiu o Dia Internacional Nelson Mandela no dia de seu nascimento, como forma de valorizar em todo o mundo a luta pela liberdade, pela justiça e pela democracia.

Nascido numa família de nobreza tribal, numa pequena aldeia do interior onde possivelmente viria a ocupar cargo de chefia, abandonou este destino aos 23 anos ao seguir para a capital Joanesburgo e iniciar atuação política. Passando do interior rural para uma vida rebelde na faculdade, transformou-se em jovem advogado na capital e líder da resistência não-violenta da juventude em luta, acabando como réu em um infame julgamento por traição, foragido da polícia e o prisioneiro mais famoso do mundo, após o qual veio a se tornar o político mais galardoado em vida, responsável pela refundação do seu país - em moldes de aceitar uma sociedade multiétnica.

Em seu foro íntimo, enfrentou dramas pessoais e permaneceu fiel ao dever de conduzir seu país. Foi o mais poderoso símbolo da luta contra o regime segregacionista do Apartheid, sistema racista oficializado em 1948, e modelo mundial de resistência. No dizer de Ali Abdessalam Treki, Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, "um dos maiores líderes morais e políticos de nosso tempo".

http://archives.nelsonmandela.org/home



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Deuses de Dois Mundos - A trilogia épica dos Orixás



Na África ancestral, Orunmilá, o maior adivinho de todos os tempos, não entende por que seus instrumentos se calaram. Nos dias atuais, um jovem jornalista se aventura pelas ruas de São Paulo, tentando fugir de uma missão que não deveria ser sua. Em Deuses de dois mundos, o autor PJ Pereira dá vida a personagens como Ogum, Xangô, Oxóssi e Oxum, que se unem a gente do nosso tempo para resgatar os 16 príncipes do destino, numa narrativa épica que preserva toda a sensualidade e violência original dos mitos africanos dos orixás.
O primeiro livro da trilogia - O Livro do Silêncio - será lançado nas livrarias de todo o Brasil em 25 de novembro de 2013.
Esse book trailer foi produzido pela Laundry Design, de Los Angeles, com trilha sonora de Otto e Pupillo (Nação Zumbi), participação especial de Andreas Kisser (Sepultura) e narração de Gilberto Gil.
"Na mitologia dos iorubás, um dos povos africanos dos quais traficantes roubaram homens, mulheres e crianças para trazer para o Brasil como escravos, deuses e humanos um dia viveram juntos. Até que dois desses deuses brigaram e criaram a separação entre o orum (que chamamos de céu) e o aiê (terra). Ao construir Deuses de Dois Mundos: O Livro do Silêncio, PJ Pereira põe a mitologia de cabeça para baixo, juntando de novo humanos e deuses num mesmo cotidiano, fundindo mito e ficção, recriando um universo em que os ciclos da repetição são rompidos e substituídos pelo produto da imaginação do autor, que, no entanto, os faz voltar em seguida ao movimento original. Em termos mitológicos esse jogo poderia resultar numa catástrofe como a que dividiu o mundo em dois, mas para nossa sorte o que a inversão operada por PJ Pereira pretende e consegue é produzir um livro delicioso de se ler, um 'livro do silêncio', que é capaz, contraditoriamente, de nos falar bem alto, como gosta a boa mitologia." - Reginaldo Prandi, Professor da USP e Autor de Mitologia dos Orixás.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Rage Against The Machine - Renegades Of Funk



"Renegades Of Funk"

No matter how hard you try, you can't stop us now
No matter how hard you try, you can't stop us now

We're the renegades of this atomic age
This atomic age of renegades
Renegades of this atomic age
This atomic age of renegades

Since the Prehistoric ages and the days of ancient Greece
Right down through the Middle Ages
Planet earth kept going through changes
And then the Renaissance came and times continued to change
Nothing stayed the same but there were always renegades
Like Chief Sitting Bull, Tom Paine
Dr. Martin Luther King, Malcolm X
They were renegades of their time and age
So many renegades

We're the renegades of funk
We're the renegades of funk
We're the renegades of funk
We're the renegades of funk

From a different solar system many many galaxies away
We are the force of another creation
A new musical revelation
And we're on this musical mission to help the others listen
And groove from land to land singin' electronic chants like
Zulu nation
Revelations
Destroy our nations
Destroy our nations

Now renegades are the people with their own philosophies
They change the course of history
Everyday people like you and me
We're the renegades we're the people
With our own philosophies
We change the course of history
Everyday people like you and me
C'mon
We're the renegades of funk
We're the renegades of funk
We're the renegades of funk
We're the renegades of funk

Poppin', sockin', rockin' puttin' a side of hip-hop
Because where we're goin' there ain't no stoppin'
Poppin', sockin', rockin', puttin' a side of hip-hop
Because where we're goin' there ain't no stoppin'
Poppin', sockin', rockin' puttin' a side of hip-hop
'Cause we're poppin', sockin', rockin' puttin' a side of hip-hop
Poppin', sockin', rockin' puttin' a side of hip-hop

We're the renegades of funk
We're the renegades of funk
We're the renegades of funk
We're the renegades of funk

We're teachers of the funk
And not of empty popping
We're blessed with the force and the sight of electronics
With the bass, and the treble the horns and our vocals
'Cause every time I pop into the beat we get fresh

There was a time when our music
Was something called the Bay Street beat
People would gather from all around
To get down to the big sound
You had to be a renegade in those days
To take a man to the dance floor

Say jam sucker (jam)
Say jam sucker (jam)
Say groove sucker (groove)
Say groove sucker (groove)
Say dance sucker (dance)
Say dance sucker (dance)
Now move sucker (move)
Now move sucker (move)

We're the renegades of funk

domingo, 6 de outubro de 2013

Nina Simone - Four Women



Nina Simone - Four Women

My skin is black
My arms are long
My hair is woolly
My back is strong
Strong enough to take the pain
Inflicted again and again
What do they call me
My name is aunt sarah
My name is aunt sarah

My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is saffronia
My name is saffronia

My skin is tan
My hair is fine
My hips invite you
My mouth like wine
Whose little girl am i?
Anyone who has money to buy
What do they call me
My name is sweet thing
My name is sweet thing

My skin is brown
My manner is tough
I'll kill the first mother i see
My life has been too rough
I'm awfully bitter these days
Because my parents were slaves
What do they call me
My name is peaches