Um dos
títulos mais importantes e corajosos da fonografia brasileira acaba de chegar,
21 anos depois do lançamento em elepê, ao formato digital. Trata-se de O Canto
dos Escravos (dentro da série Memória Eldorado), coleção de 14 cantos da série
recolhida por Aires da Mata Machado Filho no fim dos anos 20 do século passado,
em São João da Chapada, município de Diamantina, Minas Gerais. Interpretando os
cantos, Tia Doca, pastora da Velha Guarda da Portela, Geraldo Filme, um dos
nomes fundamentais do samba paulistano, e Clementina de Jesus, a rainha negra
da voz, como a definiram Moacyr Luz e Aldir Blanc.
O projeto do disco e a coordenação artística são de Aluísio Falcão, colaborador
do Caderno 2, e a direção musical e produção ficaram a cargo de Marcus Vinicius
de Andrade, hoje diretor artístico da gravadora CPC-Umes.
Ambos trabalharam, antes, no selo Marcus Pereira, que, pioneiramente, levou a
cabo um levantamento sonoro da música da cultura popular de diversas regiões do
Brasil - trabalho, aliás, que ainda não mereceu relançamento em CD à altura de
sua importância.
Marcus Pereira era um publicitário amante da música que criou o selo para dar
brindes aos seus clientes, nos fins de ano. Aos poucos, abandou a rendosa
publicidade, na qual era muito bem-sucedido, e ficou só com a gravadora, que
viveu sempre grandes dificuldades financeiras. Problemas de distribuição, comum
a todos os selos alternativos, projetos caros, como o citado mapeamento da
cultura popular, com deslocamento de equipes e equipamento para praças
distantes.
Não tinha preocupação comercial e tinha muita preocupação com a cultura. Os que
se juntaram a ele tomaram o exemplo e, posteriormente, em outros selos, deram,
de alguma forma, prosseguimento ao seu trabalho, eventualmente, ampliando-lhe o
universo. A Eldorado tinha e tem, sim, orientação comercial, mas com extremo
cuidado na seleção de seus títulos (Cartola, Nelson Sargento, Geraldo Filme,
Adoniran Barbosa fizeram suas estréias em disco por ela), e sua iniciativa mais
ousado terá sido esse O Canto dos Escravos, que há muitos anos estava fora de
catálogo e era objeto de disputa entre colecionadores, estudiosos e amantes da
cultura brasileira.
O filólogo, filósofo, professor de Filologia Românica da Universidade Federal e
da Universidade Católica de Minas Gerais, historiador, jornalista, presidente,
durante muito tempo, da Comissão Mineira do Folclore, foi um pioneiro em muitas
frentes. Escreveu, nos anos 30, já que sofria de deficiência visual, uma
Educação de Cegos no Brasil, e publicava, no jornal O Estado de Minas, uma
coluna semanal com lições de ortografia e gramática, além de responder às
dúvidas dos leitores.
Carlos Drummond de Andrade escreve-lhe uma homenagem em forma de poema,
louvando o "mineiro ladino/ Que captou na fala do povo/ No mistério dos
ritos/ no arco-íris das serras/ O ar, a alma de Minas".
Em férias, em 1929, o filólogo viajou para São João da Chapada, onde lhe
chamaram a atenção "umas cantigas em língua africana ouvidas outrora nos
serviços de mineração", conforme descreveu no livro O Negro e o Garimpo em
Minas Gerais, obra publicada em 1943 pela editora José Olympio.
Vissungos - Tais cantos são chamados vissungos, palavra que vem do umbundo
ovisungo (cantiga, cântico), conforme ensina Nei Lopes em seu Dicionário Banto
do Brasil. Já era plano de Aires da Mata Machado recolher os vissungos e reunir
o vocabulário e a gramática da língua dos negros benguelas. Teve pouco êxito na
primeira investida; na segunda, ele e seu colaborador Araújo Sobrinho ouviram
de um Seu Tameirão 200 palavras e algumas cantigas; adiante, surgiram outros
cantadores que sabiam letra, música e tradução.
Mata Machado sustenta a importância dos vissungos, sua influência nos começos
daquele arraial e mais "os vestígios da língua das cantigas na linguagem
corrente, na onomástica e na toponímia" - os vestígios de um um dialeto
banto num tempo em que se pensava que a língua dos negros trazidos como
escravos para o Brasil resumia-se ao nagô.
Ele defendia que os estudos da dialetologia brasileira e questões que dissessem
respeito à etnografia seriam sempre provisórios se não fosse considerada a
importância de Minas Gerais - e o tempo encarregou-se de mostrar seu acerto. O
texto de introdução de O Negro e o Garimpo em Minas Gerais vai reproduzido no
CD; o autor autorizou essa reprodução e a gravação de 14 dos 65 cantos que
recolheu e partiturou. Autorizou, ainda, a reprodução das notas que, no livro,
acompanham as letras dos cantos, traduções do dialeto dos benguelas e
observações sobre o sentido dos textos.
O dialeto, já modificado, incorporava palavras em português e misturava as duas
falas: "São João foi no céu, é dévera/ São João foi no céu, é mentira/
Omenhá, omenhá rossequê", canta a voz ancestral de Clementina de Jesus,
nascida em Valença, no Estado do Rio, mas de família que migrou de Minas, no
Canto XII. Os cantos não têm títulos, são numerados.
O disco, de uma beleza crua, não tem instrumentos harmônicos. Acompanham os
três cantores a percussão de troncos, xequerês, enxadas, cabaças, atabaques,
agogôs, ganzás, caxixis e afoxés tocados por Djalma Corrêa, Papete e Don Bira.
Os intérpretes são figuras de sabida importância na divulgação e sustentação da
cultura brasileira de origem africana. Geraldo Filme, grande compositor, cantor
de vozeirão profundo, foi, na definição de Osvaldinho da Cuíca, o grande
articulador, a "cabeça pensante" do samba paulistano. Tia Doca,
nascida Jilçaria Cruz Costa, manteve por décadas um pagode dominical que ajudou
a manter vivo o samba de raiz carioca; sua participação no disco foi sugerida
por Clementina de Jesus, que foi revelada ao mundo aos 64 anos, depois de
ouvida, num botequim da Lapa, centro do Rio, por Hermínio Bello de Carvalho.
Paulo Eduardo Neves
Agenda do Samba & Choro, o boteco virtual do
samba e choro
http://www.samba-choro.com.br